sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Bela Adormecida


Cecília era uma estudante de Odontologia. Apaixonada pelo que fazia, tinha ajuda da sua mãe para se manter no curso que gostava. Estudava numa faculdade federal, vinda da rede pública. Sem condições de fazer cursinhos, ela ficou quatro anos de sua vida estudando e tentando entrar na tão almejada faculdade. Foi então que sua vida teve uma mudança repentina.
            Estava com 24 anos e no terceiro ano de curso. Namorava um dos seus colegas. Seu nome era Diego. Ambos eram felizes, um casal realmente feliz. Tinham metas traçadas, desejos conjuntos, vontades e tudo mais que as pessoas normais objetivam para suas vidas. Perto do aniversário de sua sogra, Cecília decidiu viajar para o interior para participar da festa de aniversário da mãe de seu namorado. Diego havia ido na frente, enquanto Cecilia acertava as pendencias finais de uma cadeira de seu curso. Logo estariam juntos de novo.
            Era sexta-feira, 3 de julho de 2009. Cecília estava dentro do ônibus que iria para Caxias do Sul. Ela estava feliz, sorridente e alegre. Mas seu ônibus jamais chegara ao seu destino.

         Débora

                Débora estava em sua casa, chorando. Era domingo e fazia dois anos que o ônibus, onde estava sua filha, colidira de frente com um caminhão na subida da serra. Cecília fora socorrida e jazia em coma na cama do hospital. Sofrera um trauma na cabeça e segundo os médicos, sua recuperação era incerta. Não havia nada a se fazer, exceto esperar. Talvez ela acordasse em alguns minutos, ou talvez somente em alguns anos. Talvez, ainda, nunca acordasse. A verdade era que as apostas estavam em sua maioria concentradas nesta ultima opção.
            As lembranças eram doloridas. Não conseguia ver as fotos da filha, sem que começasse a sofrer por dentro. Sua garganta doía, não conseguia falar. Suas lágrimas não podiam ser contidas. O pior de tudo talvez fosse a solidão, não havia ninguém em quem pudesse se apoiar para desabafar. Vivia ali, sozinha. Seu marido havia falecido devido a um câncer de pulmão decorrente do abuso excessivo de cigarros. Sua filha mais velha, Letícia, morava com sua filha longe demais da sua casa. Sua filha mais nova era a única companhia que tinha. Quando entaõ começou a namorar, rezava todos os dias pedindo a Deus para que ela não fosse embora tão cedo com o rapaz que namorava. Mas ela nunca esperou que sua pequena filha fosse tirada de seus braços daquela forma.
            Era uma senhora de 62 anos, que vivia da sua aposentadoria. Ia ao supermercado as quintas, lava as roupas nas sextas, alugava filmes aos sábados para assisti-los aos fins de semana. Sua vida era bem distribuída, na ausência de sua família, arrumara o que fazer. O quarto de Cecília vivia fechado, já fazia seis meses que estava trancado. Não ousava entrar lá. Muitas lembranças estavam ali presentes, dolorosas demais para que se lembrasse.
            Débora não rezava mais. Não pedia nada mais a Deus. Não sabia no que acreditar, no que iria fazer no futuro. Só sabia que estava viva e que devia aguardar pelo fim de sua vida. Não tinha mais motivações. Não tinha mais vontades. Não tinha mais amores, paixões ou desejos. No fundo, sabia que estava morta, como sua filha.
            Uma vez a cada duas semanas, Débora ia ao hospital visitar a filha. Continuava entubada como sempre. Não acordava do coma, não tinha nenhuma alteração do quadro clínico e permanecia igual como sempre esteve nos dois últimos anos. Débora ia ao hospital, não na esperança de ver sua filha despertar para a vida, mas como alguém que ia visitar um ente querido num cemitério.
            Perdera a fé, perdera a vontade de viver, perdera o amor nas pequenas coisas, perdera os desejos de ir além de onde estava, perdera os gostos que tinha pela música. Perdera tudo. Perdera sua filha.
            Talvez, estivesse mais morta do que Cecília. Restava ainda esperar o dia em que morreria. Pensava nisso todo dia após acordar. Queria ser enterrada ao lado do tumulo de seu esposo. Queria que sua filha estivesse ao lado. Pensava que já era o momento de desligar os aparelhos e acabar com o tormento de dois anos. Ela pensava em autorizar a eutanásia em sua filha. Ela pensava em acabar com a dor.

         Letícia

            Letícia era a irmã mais velha de Cecília. Tinha 29 anos Vivia num apartamento pequeno junto com sua filha Luíza, de sete anos. Se casara cedo com um rapaz chamado Augusto que lhe abandonou dois anos após o nascimento de sua filha. O ex-marido fora morar com outra mulher, mais jovem. Trabalhava como secretária e se dedicava entre o trabalho e a criação de sua filha. Ela torcia para sua irmã mais nova não repetir seu erro e se dedicar aos estudos. Por isso tinha uma certa resistência contra o namorado de Cecília. Sua mãe pouco se importava com ela, portanto não se viam a um bom tempo e ao que parecia, ela não se importava com isso e nem com o fato de ter uma neta.
            Mas o inesperado aconteceu. Sua irmã Cecília se acidentara e entrara em coma. Depois disso, passou a visita-la toda semana. Sempre via a irmãzinha deitada e esperava que acordasse. Passou a dedicar sua vida a filha, ao trabalho e a visitar sua irmã. Nos três primeiros meses, perguntava se havia mudança no quadro clínico da irmã. Os médicos revelavam que não. Então depois deste período, passou a visita-la, mais por uma obrigação pessoal. Queria estar ao seu lado, mesmo aceitando o fato de que provavelmente ela jamais despertaria.
            Ao entrar no quarto, chorava ao ver a irmã. Se lembrava dos bons tempos com ela. As vezes conversava e comentava fatos do seu cotidiano. Era uma forma de extravasar o que guardava para si. Apesar de Cecília não dar conselhos, o simples fato de estar ali para escutar confortava o coração de Letícia. No fundo, acreditava que sua irmã podia ouvir.
            Estranhamente aceitava que ela não acordaria mais. Os médicos já davam essa certeza por oficial nos seus diagnósticos. Até comentavam sobre a possibilidade de uma eutanásia, caso assim a família desejasse. Letícia repudiava a ideia. Sua irmã podia não acordar, mas estava viva ainda. Ela achava que não teria como suportar viver sabendo que sua irmã estava morta por conta de uma decisão dela. Acreditava que só Deus tinha esse direito, não ela. Prometeu para si mesma, que mesmo que ela vivesse em coma, pelo resto de sua vida, igualmente ela iria visita-la.
            O ritual era semanal e sempre ia ao contra turno do trabalho, juntamente com sua filha. Lia histórias de conto de fadas para elas. Sua irmãzinha adorava quando pequena, sua filha mais ainda. Depois ia para casa, colocava Luíza para dormir e tratava de se recolher.
            Às vezes Letícia chorava. Eram lágrimas de ódio, tristeza e amor. Odiava o fato de sua irmã ter tido aquele fim, entristecia o fato de saber que não iria vê-la novamente sorrindo e o que a fazia suportar a esta tempestade era o amor que nutria por ela. No fundo tinha esperança no melhor, só não queria dar o braço a torcer.

         Luiza
         
       Luiza tinha apenas sete anos. Era uma garota feliz, esperta e brincalhona. Não trabalhava e não tinha problemas, pois estava ocupada demais sendo feliz. Gostava de assistir desenhos, de correr e brincar no parque e na escola e amava sua coleção de ursos e de bonecas. Tinha uma rede social bem vasta, se comunicava não pela internet. Na verdade Luiza conhecia um modo mais emocionante de falar com as pessoas, não por mensagens, scraps, posts ou tweets. Ela usava comunicação cara a cara. Usava palavras reais, abraços reais, beijos na bochecha reais. Era impossível para ela ter um vazio no seu coração, pois ele era imensamente cheio.
            Um fato peculiar na sua vida era acompanhar sua mãe as terças-feiras à noite até o hospital. Sua mãe se chamava Letícia, uma linda mulher. Iam para lá sem falta, todas as terças nos últimos dois anos visitar sua tia, Cecília. Via sua mãe chorar muitas vezes conversando com ela. E sempre que perguntava, sua mãe dizia que ela estava dormindo e que nunca acordaria.
            Luíza lembrou de um caso semelhante, ocorrido uma vez. Lembrou-se de uma mulher que acabou dormindo para sempre e que jamais acordaria. Seu nome era Bela Adormecida e lembrava que ela ficara 100 anos dormindo até que um príncipe havia lhe encontrado e beijando ela, Bela Adormecida despertou. Sabia dessa história por conta de sua mãe. Acreditava em tudo que sua mãe dizia. Bastava algum príncipe para beijar sua querida tia.
            Sua mãe ria, quando tentava explicar sobre como acordar sua tia. Sua mãe tentava explicar, mas Luíza insistia que era possível. Perguntava se já haviam tentado. Ninguém havia tentado. Diego era o namorado de Cecília, depois do acidente, passou a visita-la todos os dias. Com o passar do tempo, a frequência ia diminuindo até que não mais a visitava.
            Luíza acreditava que dependia dela, apenas dela acordar sua tia. Falava a mesma coisa para os médicos, que riam e lhe davam pirulitos ou balinhas. Adultos não levavam nada a sério. Mas havia uma enfermeira que lhe dava atenção. Um dia lhe revelou que o tal namorado de sua tia, trabalhava naquele hospital como dentista. Luíza estava decidida a ir atrás dele. A enfermeira com autorização da mãe então decidiu levar Luíza para um passeio no hospital. Então a jovem criança encontrou Diego, o dentista.
            Ambos se conheceram, conversaram por bastante tempo e o dentista inclusive olhara os dentes de Luíza, totalmente bem cuidados. Diego não gostava de lembrar o passado, mas estranhamente, dava ouvidos àquela criança. Em seu tom inocente, lembrava-se dos momentos felizes com Cecília. Não dos ruins como geralmente lembrava.
            Luíza passou a visitar Diego, todas as vezes que ia ao hospital. Tornaram-se amigos. Luíza insistia em convencer o amigo a visitar sua tia, a acorda-la. Era necessário somente um beijo. Diego nunca conseguira engatar um relacionamento depois do ocorrido com Cecília. Vivia cada dia, um depois do outro, normalmente como qualquer pessoa, mas sentia que faltava algo em seu mundo.
            Luíza não desistia, porque desistir era uma coisa que não existia para crianças. E um dia, um dia comum, um dia normal, Diego decidira enfrentar os fantasmas de seu passado. Resolveu ouvir o conselho de uma criança que dizia que era necessário apenas um beijo para acordar aquela que ele tanto amava. Sim, ele ainda a amava.
            Diego entrou no quarto de Cecília. Lá estava a irmã dela, Letícia que não o reconheceu inicialmente. Lágrimas saiam dos olhos de Diego, que via Cecília pálida, deitada na cama como da última vez que havia visto ela. Luíza entrara em seguida e fora até o lado de sua mãe. Puxara ela pela calça e mostrara um lindo sorriso, grande, digno de uma criança inocente. Diego fez o que Luíza pediu, beijou-a... como se por milagre, os aparelhos apitavam. Freneticamente. Assustando a todos. Tudo isso complementado por uma das ações humanas mais simples do universo: um abrir de olhos.
          Nós nunca seríamos capazes de compreender as verdades do universo. Porque conforme crescemos, nós amadurecemos e nos tornamos ignorantes em nossa sã consciência. Contos de fadas existem e acontecem todos os dias no mundo, tanto nas pequenas coisas como nas grandes. Basta que se abra a mente para os milagres da existência, para a magia da vida e para os mistérios que permeiam nossos destinos. Coisa que toda criança pequena sabe. Em sua inocente infância.

          Cecília e Diego viveram felizes para sempre... como Letícia, Luíza e até mesmo Débora.


Por Bruno Moura

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